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Quando o senso comum da mídia se confunde com a opinião de setores supostamente esclarecidos, a lucidez está perdida. Se todo o processo histórico é reduzido à folhetinização de escândalos, ao espetáculo de comissões parlamentares e acareações sem sentido, a trama não guarda qualquer relação com moralização de costumes públicos ou preocupação efetiva com os rumos da política econômica. As fraturas éticas e o aliancismo equivocado do Partido dos Trabalhadores servem, agora, como pretexto para a ofensiva de forças conservadoras a um governo que, apesar da agenda adotada, consegue reduzir a miséria de forma expressiva. Em 2004, segundo a FGV, a redução teria atingido 8%. Comparemos esses números com os obtidos pelo bloco tucano. O mesmo que pretende voltar ao poder e ''restituir a decência''.
O triste é ver a grita moralista unir reacionários conhecidos a esquerdistas combativos. O que o discurso separa, o método une. Ignoram que ação política movida a ressentimentos e balizada pela moral privada não educa politicamente. Constrói atalhos para o retrocesso. Eis a engenharia do purismo. Tenha ele sotaque alagoano ou carioca.
Como já destacou Marilena Chauí, ''não é digno politicamente não colaborar com um governo que está sob ataque''. No centro da peroração de seus detratores, não há qualquer preocupação com a qualidade institucional. O móbil da burguesia patrimonialista e seu colosso midiático não é outro senão a velha luta de classes, a preservação de estruturas arcaicas que impedem a promoção da cidadania em uma sociedade fracionada. Ser de esquerda é compreender a complexidade do momento. Render-se aos clamores de segmentos médios, pautados pela grande imprensa, não revela inteireza ética, mas oportunismo político e atração inequívoca pelos holofotes. Assim morrem as mariposas.
Não é nosso objetivo propor que se passe uma borracha em todos os erros cometidos. O transformismo da direção partidária, seu deslocamento das bases e alianças com legendas de direita foram um balde de água fria na militância forjada ao longo de 25 anos de luta. Mas não joguemos a criança fora junto com a água suja da bacia. Nesse período, o Partido dos Trabalhadores e suas bases sociais fizeram o país avançar politicamente como nenhuma outra força de esquerda havia logrado antes. Será sensato ignorar tal massa crítica e, por decreto, falar em ciclo encerrado? Não é mais correto tentar recompor a base de centro-esquerda do atual bloco de poder? Ao furor inquisitório não é prudente exercer a crítica dialética? Ainda mais quando sabemos que, em seu atual estágio, a crise antecipou o processo sucessório.
O oligarca não está preocupado em apurar o ''valerioduto'' até as últimas conseqüências, muito menos financiamentos ilegais de campanha. Se o fizesse veria expostas suas próprias entranhas. O que o incomoda de fato, e acirra seus ataques, são números como os divulgados sexta- feira pelo IBGE . Dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD) registram recuperação do rendimento médio da população, em queda desde 1997. O nível de ocupação atingiu 56,3%, o maior desde 1996. O Índice de Gini demonstra queda na concentração de renda, com metade da população que ganha os menores rendimentos obtendo ganho real de 3,2%. O melhor resultado nos últimos 24 anos. Adicionemos a isso o Bolsa-Família, programa de renda familiar básica, que atende a oito milhões de famílias. Notemos, ainda, que esse não é um governo de esquerda até por sua composição de origem. Por injunções várias, além do transformismo, não pôde assumir plenamente, como prioridade, as demandas das classes populares. E, no entanto, desespera as forças conservadoras. Por que será?
O cientista político Geraldo Tadeu Monteiro mostrou como a persistência e o acirramento da crise levam ao vazio político. Cioso dizer quem dele se beneficiará. Só nos sobra uma saída. Abandonar palavras de ordem vazia e adotarmos uma postura de esquerda. Bem distante do socialismo de salão.
Fonte: http://jbonline.terra.com.br/papel/opiniao/2005/11/30/joropi20051130004.html
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