Artigos - Gilson Caroni
 

09/11/2005 - Opinião

Mídia em tempos de cólera

 

Vivemos tempos de cólera. A ofensiva da direita já não esconde objetivos nem atualiza métodos. Deixa claro o jogo e mostra o cacife que dispõe. No limite, aposta no esquecimento do passado recente para agir com desenvoltura. Como assinalou Mauro Santayanna ''enganam-se os que pensam que a oposição a Lula é mobilizada pelo combate à corrupção''. Em que pese às concessões ao capital e o transformismo de seus principais quadros, o governo possui, após meses de intenso bombardeio, uma significativa base popular de apoio. Fato tão novo quanto incômodo para uma classe dominante acostumada a transitar com desenvoltura em sociedade fracionada. O que fazer? Não nos iludamos com retórica de algibeira. Os condestáveis do patrimonialismo não têm qualquer compromisso com ética na política, estabilidade institucional e consolidação democrática .Jogam sujo e pesado. E nisso contam com inequívoca colaboração das oficinas de consenso das grandes redações.

Negligência nas apurações factuais e editorialização de reportagens não são propriedades exclusivas de uma publicação. Quando os alvos são lideranças de extração popular, distorção de dados e ocultação de fatos se alastram por quase todo campo jornalístico. Se Veja nos brindou com a versão rocambolesca dos dólares cubanos para a campanha de Lula, a Rede Globo mal pôde esperar a abertura da IV Cúpula das Américas, em Mar del Plata, para assestar suas baterias contra a liderança sul-americana mais odiada pelo protofascismo de Washington: Hugo Chávez. Na edição de 2/11, o Jornal Nacional, apresentou o presidente venezuelano como alguém que ''mudou a constituição, aumentou o mandato presidencial, nomeou mais doze juízes para a Corte Suprema e instituiu um rígido controle sobre os meios de comunicação''. Esqueceu-se de mencionar a tentativa de golpe e o papel ativo da mídia. O programa de saúde foi apresentado como ''muito improvisado''. Dois dias depois, no mesmo telejornal, Arnaldo Jabor, dublê de âncora e bufão, chamou Chávez de ''leão de chácara que ataca os EUA em nome de um socialismo delirante'', alertando que atrás dele podem ir ''os governos fracassados de Lula e Kirchner''. O comentário figadal seria complementado por um artigo no jornal O Globo, em 5/11: ''Enquanto Maradona dividia os espaços na mídia com as fanfarronices de Hugo Chávez, as Mães da Praça de Maio e Alfonso Pérez Esquivel, vítimas reais da ditadura argentina, contra a qual Maradona nada fez, ficaram em segundo plano''. Como se vê, há mais similitudes estilísticas entre a imprensa venezuelana e a brasileira do que supõem inúmeros editores. E o que move a roldana da reação?

Talvez a resposta esteja nas palavras do sociólogo Michael Löwy: ''O governo venezuelano é o que aparece, hoje, de mais avançado na América Latina em termos de reforma social, de resistência aos ditames do imperialismo e de luta contra as oligarquias''. Eis uma constatação que une, na mesma repulsa ao presidente venezuelano, o conservadorismo político do PFL e do PSDB e a estrutura monopolística de informação. As Missões de educação massiva, de atendimento médico gratuito, de mercados populares, de desenvolvimento educacional, entre outros programas, beneficiam 20 milhões de venezuelanos, 75% da população. O nível de exclusão social foi reduzido significativamente e a guerra ao latifúndio declarada. Os indicadores macroeconômicos são, comparativamente, invejáveis em termos regionais.

Êxitos formidáveis, só possíveis com o desmantelamento do sistema político tradicional, com a vitória sobre a mídia privada e seus intelectuais orgânicos. Lá, como aqui, a polarização é inevitável. O que assusta as nossas elites é a exemplaridade. São formações distintas, mas o modus operandi das classes dominantes guarda muitas semelhanças. Vivemos tempos de cólera. Que as correntes do campo democrático-popular não se esqueçam disso. O outro lado nunca esqueceu. E nunca foi derrotado.