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É correto, com a guerra sucessória já deflagrada e todos os cenários apontando para um novo embate entre Lula e Serra no próximo ano, falar em falsa polarização? Se assim for, qual o móbil que fez da eleição para a presidência da Câmara um jogo de soma zero? Como se explica a certeza raivosa de um Borhausen a declarar que ''nós, agora, vamos nos livrar dessa raça por muitos anos''? São indagações que clamam por respostas precisas.
Como já assinalei em outro artigo publicado no JB (''O sonho acabou'', 6/7), ''o que ruiu no atual governo foi um projeto de poder que, corroído pelo transformismo, renegou bandeiras erguidas em duas décadas e meia de lutas''. Pois bem, isso atinge o partido em sua totalidade? Podemos, tal como crianças contrariadas, largar o patrimônio amealhado e partir para uma nova aventura ou, ao contrário, devemos travar a luta interna pela hegemonia? O apoio dado à candidatura de Raul Pont à presidência do PT por intelectuais do porte de José Luís Fiori, Emir Sader, Francisco de Oliveira e Marilena Chauí, entre outros, parece não deixar dúvidas quanto ao caminho a ser seguido. Não só pelo que esse manifesto representa como substância mas também pelo que traduz em termos de pluralidade no campo da esquerda.
O confronto com os que julgavam possível mudar a sociedade a partir do Estado legitima alianças, ainda que circunstanciais, com setores que serviram ao mercado, privatizando o Estado? Que tribunal da história é esse que tem como vestais Antônio Carlos Magalhães, Alberto Goldman, Jorge Borhausen , Inocêncio de Oliveira e José Thomaz Nonô?
A ''ética na política'' abrange leque tão amplo que englobe coronéis midiáticos e exploradores de trabalho escravo? Há uma bela aporia quando Babá vê Nonô. O purismo, quem diria?, leva a más companhias. Algo pouco sólido se desmancha no chão.
O que é precisamos ter em mente é que se o governo Lula adotou a agenda contra a qual se elegeu, seu governo não pode ser confundido com o bloco de poder (PSDB/PFL) que a implantou. O papel da ideologia é ocultar diferenciações fundamentais. E para isso a direita conta com o apoio da mídia e o discurso da extrema-esquerda. Valendo-se da debilidade do governo que privilegiou uma base parlamentar sem balizamento programático, o tucanato conta com a vitória em 2006. Se reconquistar a presidência da República, como destaca Valter Pomar, ''estarão criadas as condições para que a direita combine o enfraquecimento social da classe trabalhadora, com o enfraquecimento político-institucional da esquerda brasileira''. O ''comichão de futuro'' que FHC diz sentir, afirmando que ''mais uma vez a tarefa histórica nos chama'', pode ser entendido como fortalecimento da tríade solicitada pela reprodução capitalista no Brasil: superexeploração do trabalho, dependência externa e latifúndio. O sujeito para tal empreitada tem nome e sobrenome: José Serra.
Quaisquer veleidades de soberania e integração regional deverão ser engavetadas. A Comunidade Sul-Americana, tal como proposta na Declaração de Brasília, ''orientada para a promoção de melhores níveis de vida, geração de trabalho decente, justa distribuição de renda e extensão de benefícios sociais'' soará como relíquia antiimperialista. Os interesses estadunidenses determinarão a nova pauta, com destaque para o ''perigo'' que Hugo Chávez representa para o sistema democrático na região. O retrocesso terá escala continental.
Daqui a pouco mais de um ano, tal como no filme de terror, estaremos vivendo a hora do pesadelo. Freddy Krueger espera as crianças dormirem para atacá-las.
Serra, dizem, é insone. Nossos garotos, numa variação tosca do social-fascismo, insistem que o inimigo é Lula. Freddy Serra esperará que o sol se ponha. Quando dormirem o sono dos justos, ele dirá ao que veio. Não dêem a isso o nome de democracia. Servidão voluntária cai melhor e evita problemas de tradução.
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