Artigos - Gilson Caroni
 

Fonte - www.temnoticia.com.br

Dois fóruns e a vida

 

Apesar de todo esforço cênico-diplomático, a ponte entre os fóruns é historicamente inviável

Se é fato que o capitalismo contemporâneo se consolidou pela ação de forças e condições materiais identificáveis, temos um sistema passível de intervenção. Se, tal como as formações que lhe antecederam, foi formado em circunstâncias históricas determinadas, sua superação não só é factível como desejável. Em suma, o lema ''um outro mundo é possível'' está longe de prenunciar que cinco mil organizações, redes e movimentos de 150 países tenham ido a Porto Alegre participar de uma festiva ''feira ideológica''. Um happening dos que não agregam valor e são incapazes de avançar além de protestos inconseqüentes.
 
A necessidade, destacada por Emir Sader, de buscar formulações propositivas, deixando para trás ''concepções liberais de ONGs que tratam de restringir a luta por uma nova era ao que chamam de 'sociedade civil''' é indiscutível. Outro ponto que merece destaque é a importância de se desvencilhar da armadilha ideológica que propõe articulação superestrutural sem intervenção nas relações de dominação. Não há dúvida que é hora de transformar a massa crítica acumulada em uma teoria geral do capitalismo contemporâneo que se pretende combater. Não se trata de, como destacou o sociólogo belga François Houtart, fazer do Fórum Social Mundial uma ''Quinta Internacional'', mas transformá-lo no norte de ação para os vários tipos de atores que dele participam.
 
Se nos restringirmos à América Latina, pelos limites exigidos para a publicação desse artigo, teremos um quadro esclarecedor da necessidade de um pensamento crítico que corresponda às exigências da realidade histórico-social do subcontinente. Após duas décadas de neoliberalismo, presenciamos economias estancadas pela reconversão de suas estruturas produtivas, taxas recordes de desemprego e a mais alta porcentagem de pobreza da história da região. Pagamentos de juros externos equivalentes a 2,4% do PIB regional superam, por cinco anos consecutivos, os créditos obtidos. É dessa desdita que surge o cenário contra-hegemônico e seus novos atores. Os movimentos indígenas que, em alguns países, exigem a redefinição de Estado Nacional, os piqueteros que, face à crise argentina obtêm adesão de segmentos médios, e o MST que, longe de se limitar a uma demanda por redistribuição de terras, luta por uma nova gestão de propriedade e de governo.
 
São subjetivações sociais, forças emergentes ainda desprovidas da capacidade que, segundo Gramsci, definiria hegemonia: a de exercer uma direção intelectual e moral sobre o conjunto da sociedade. É para elas que o colossal conjunto de redes que compõe o FSM pode, pela articulação horizontal, fortalecer a consciência internacionalista que viabilize ganhos políticos vindouros.
 
A luta contra a primazia do cálculo financista sobre a vida e da compreensão desta como apêndice da geração de valor é crucial para o futuro da humanidade. O capital global e seu Estado hegemônico têm imperativos infinitos de expansão. A necessidade de controlar a maior quantidade possível de recursos naturais estratégicos é, juntamente com o uso indiscriminado de sua capacidade militar, a materialidade solicitada pela reprodução ampliada. Os déficits gêmeos e a desvalorização do dólar não apontam para o surgimento de novos blocos capitalistas que lhe tomariam a primazia. Uma nova ordem monetária com o euro fazendo o papel de moeda-petróleo só seria exeqüível com equilíbrio bélico. O refinanciamento da dívida estadunidense pode levar de roldão toda a economia capitalista. Portanto, não esperemos que venha da Europa, pelo menos no atual bloco histórico, qualquer resistência efetiva à sanha imperialista.
 
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva respondeu às vaias de um grupo reduzido da platéia do FSM dizendo tratar-se de ''um gesto democrático feito pela boca daqueles que não têm paciência de ouvir as verdades''. Em seguida, rumou para o Fórum Econômico de Davos. Foi ouvir as verdades do capital. O pseudo-rigorismo da matematização dos problemas sociais. Não se sabe se lhe contaram da ameaça que representa o capital orbital de US$ 3 trilhões que gravita em torno do planeta. É provável que a pressão política do FSM tenha levado lideranças governamentais e corporativas a anunciar, sem qualquer compromisso de levar a cabo, a taxação de transações financeiras e a tributação de paraísos fiscais. Contudo, apesar de todo esforço cênico-diplomático, a ponte entre os dois fóruns é historicamente inviável. Não há como unir um ''outro mundo possível'' com a terra sem sonhos do capitalismo. A sociedade fundada na lei do valor não pode mais superar a si própria. Para ela, como devir da espécie humana, a história acabou.
 
*Gilson Caroni Filho é professor titular de Sociologia da Facha (Faculdade de Comunicação Hélio Alonso, no Rio de Janeiro)


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