Artigos - Gilson Caroni
 

28/08 - JB Online

Adeus, Lula

 

Contrariando um dos bordões mais famosos do comunicador José Abelardo Barbosa de Medeiros, o Chacrinha, o governo Lula acabou antes de terminar. Não deixou qualquer legado que possa espantar a perigosa junção que assoma o grosso da militância: o pessimismo do pensamento coincidindo com a paralisia da ação. Abriu, como bem destacou Luis Fernando Verissimo, espaço para a direita propagar a tese de que ''a ruína do PT é a ruína da esquerda no Brasil e a prova de que um governo de origem popular não tem competência nem para esconder sua sujeira sob o tapete''. Tristes tempos. Tristes trópicos. Pura falácia de uma elite apodrecida.

Encerrado o período das metáforas lulistas, talvez tenhamos que recorrer às paráfrases como forma de perseverar. Quem sabe uma pitada de John Maynard Keynes, formulada inversamente, assegure que no longo prazo estaremos todos vivos. Na tensa dialética que assegura a inexistência de derrota definitiva, temos que buscar a restituição de uma perspectiva histórica promissora.

O que ruiu foi um projeto de poder que, corroído pelo transformismo, renegou bandeiras erguidas em duas décadas e meia de lutas. Se para a militância orgânica o processo vem desde 1994, com a profissionalização de quadros e esquemas de financiamento que passavam ao largo das instâncias formais partidárias, para os 52 milhões de eleitores que deram a vitória a Lula, as denúncias de caixa dois e corrupção foram como ''um raio num dia de céu azul''. Nas palavras do comerciante Reinaldo Reinoso ao JB de 22/08: ''O Congresso eu já sabia o que era(...) mas o PT nos enganou. Votei em Lula, mas o PT e Lula, nunca mais''. É uma assertiva muito forte para ser ignorada. Chegada a hora do rescaldo, algumas lições devem ser extraídas.

A crise, com desfechos ainda imprevisíveis, aponta para a falência definitiva da ilusão de modificar a sociedade a partir do Estado. Ainda mais através de uma oligarquia que, descolada dos movimentos organizados, centralizou o poder e interditou o debate com outras tendências. Ao trocar a luta social pelo poder de Estado, fortaleceu um aparato de dominação que impediu o renascimento do político sob novas práticas. O poder, por si só, sem o pulsar dialético de fins e meios, levou ao pragmatismo fisiológico e ao bolchevismo patrimonialista, zeloso administrador da agenda liberal-conservadora. A tranqüilidade dos mercados costuma ser o cemitério da ética. Alianças sem balizamento programático não capilarizam a democracia, pelo contrário, potencializam a corrupção como forma reiterada de processo acumulativo. Conduzem, como destacou em recente entrevista o cientista político Carlos Nélson Coutinho, à ''pequena política'' em detrimento de uma ação efetivamente transformadora.

A casta operária também não deixou de dar sua contribuição inestimável. Gushiken, Delúbio e Marcelo Sereno não se apresentam como desviantes à frente de fundos de pensão. São, antes de tudo, figuras emblemáticas do mundo do trabalho. Talvez ao analisa-lo, devêssemos nos socorrer nos ensinamentos da biologia. Os genes da produção são mais compatíveis com uma ética de acumulação do que com a gestação de uma sociedade futura. O aparelhamento de fundos de previdência complementar ligados a estatais e a transformação de sindicalistas em gestores de mercado mostram como, ao contrário do clássico filme de Elio Petri, nossa classe operária foi ao paraíso. Um Éden estimado em R$ 280 bilhões.

Resgatar um projeto hegemônico requer coragem para confrontar o erros recentes. A ação da esquerda nos marcos do Estado de Direito deve conciliar a política institucional com a dinâmica dos movimentos sociais dos quais se origina. Lutar pela conjugação de forças dos mundos do trabalho e da cultura é imperativo. E, à luz de tudo por que estamos passando, aperfeiçoar mecanismos de controle do capital na esfera política. Por fim, reconhecer o lulismo como momento importante a ser superado. Algo a ser reverenciado pelo que representou e posto em local de destaque no museu das apostas perdidas.