| Lapa (I)
1 – O Passeio Público
O Rio de Janeiro, no início do século XVIII, ocupava área rodeada pelos morros de São Bento, da Conceição, de Santa Teresa, de Santo Antônio e do Castelo. Infelizmente, o Morro do Castelo, por motivos urbanísticos, foi demolido em 1921 na gestão do Prefeito Carlos Sampaio, o que já era cogitado pelos governos anteriores desde 1789. Resta hoje um pedacinho do Morro no final da rua da Misericórdia, junto à Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso. Havia, no local, uma placa de bronze indicativa colocada durante o governo Carlos Lacerda, mas que “desapareceu”.
Também o Morro de Santo Antônio, junto ao convento que tem o seu nome, no Largo da Carioca, pelos mesmos motivos, foi arrasado no início da década de cinqüenta. A urbanização da cidade naquela época se iniciou pelas partes mais altas, onde foram construídas igrejas e conventos, em redor dos quais moravam as pessoas de mais posses, já que nas partes mais baixas existiam lagoas pantanosas e mal-cheirosas, impróprias para se viver.
Uma dessas lagoas, em meados do século XVIII, a Lagoa do Boqueirão, foi aterrada por ordem do Vice-rei Dom Luís de Vasconcelos para proteger a saúde da população, depois de uma grave epidemia de gripe que assolou a cidade. Em seu lugar, seria construído um parque, convidando-se o melhor escultor na ocasião, o mestre Valentim, que fez o projeto seguindo o estilo francês: linhas retas, muros altos com janelas e grades de ferro. Assim nasceu o Passeio Público, inaugurado em 1783 e permitido o acesso apenas às pessoas da alta sociedade. Somente a partir de 1793 a população pôde usufruir do Parque.
O Passeio Público, em 1861, foi completamente modificado com projeto do paisagista francês Auguste Glaziou, que substituiu as linhas retas pelas curvas, com lagos, pontes e riachos. Do projeto anterior, foram conservados o portão de entrada, os obeliscos e o chafariz dos jacarés, que se encontram tombados pelo Patrimônio Histórico Nacional. Recentemente, em 2004, o Prefeito César Maia reinaugurou o Passeio Público, dotando-o de placas explicativas de tudo que existe no parque. É um verdadeiro passeio pela história do Brasil, que merece a visita não só de todos os cariocas, mas também de todos os brasileiros. E com toda a segurança.
Muitos bustos de personalidades importantes encontram-se distribuídos pelo parque, como o de Olavo Bilac, Raimundo Correia, Pedro Américo, Vitor Meireles, Francisco Braga, Alberto Nepomuceno, Chiquinha Gonzaga e outros. Entre tantos, vale, ainda, fazer menção à inauguração do de Gonçalves Dias (e que não conseguimos localizar). Machado de Assis, no livro “Relíquias de Casa Velha”, da Livraria Garnier, no capítulo “Páginas Críticas e Comemorativas” conta ter sido o autor do discurso por ele lido, na qualidade de presidente da Academia Brasileira de Letras, no Passeio Público, ao inaugurar-se, perante o Prefeito do Distrito Federal, o busto de Gonçalves Dias.
Diz o maior escritor brasileiro de todos os tempos: “Se eu houvesse de dizer tudo o que este busto exprime para nós, faria um discurso, e é justamente o que os autores da homenagem não devem querer neste momento. Conta Renan que, uma hora antes dos funerais de George Sand, quando alguns cogitavam que convinha proferir à beira da sepultura, ouviu-se no parque da defunta cantar um rouxinol. Ah! Eis o verdadeiro discurso! Disseram eles consigo. O mesmo seria aqui, se cantasse um sabiá. A ave do nosso grande poeta seria o melhor discurso da ocasião. Ela repetiria à alma de todos aquela canção do exílio que ensinou aos ouvidos da antiga mãe-pátria uma lição nova da Língua de Camões”.
E mais adiante, no mesmo discurso, uma mostra de que o mar vinha bater até as portas do Passeio Público, antes de se fazer o aterro do Flamengo: “Quem vier a este canto do jardim, entre o mar e a rua, achará o que se encontra nas capelas solitárias, uma voz interior, e dirá pelo Rosário da memória as preces em verso que ele compôs e ensinou aos seus compatrícios”.
Nas manhãs de domingo, debaixo das árvores seculares do Passeio Público, se realiza a Feira do Colecionador, onde se reúnem os amigos da fotografia, selos, cartões e livros antigos.
2 – Arcos da Lapa
Os Arcos da Lapa são, sem dúvida, o símbolo histórico mais representativo do Rio Antigo. Quando se quer mostrar uma síntese da Cidade aos turistas estrangeiros, normalmente, se juntam os Arcos, Pão-de-Açúcar, Corcovado e o Maracanã. E, às vezes, Copacabana. Começou a ser construído em 1723 com a finalidade de levar para a população a água captada do Rio Carioca nas serras junto ao Corcovado, em Santa Teresa, até o chafariz da Carioca. Mais tarde essa água seria estendida, através da rua do cano (sete de setembro), até o Largo do Paço (Praça Quinze), aonde os navios vinham abastecer-se.
Reconstruído em 1750, o majestoso aqueduto em estilo romano tinha 270 metros de comprimento, 64 metros de altura e 42 arcos duplos. Foi inspirado no Aqueduto das Águas Livres de Lisboa e erguido com mão-de-obra indígena e escrava. Durante todo esse tempo o fornecimento de água da cidade ficou resolvido, até que, com o advento da República e o aumento da população, se procuraram e foram conseguidas outras alternativas.
Mas o velho aqueduto não foi aposentado. A partir de 1896 até hoje, ele vem servindo de viaduto para o bondinho de Santa Teresa, que tem seu ponto inicial atrás do prédio da Petrobrás, na Rua Prof. Lélio Gama. E, durante as festas religiosas, como a Semana Santa e o Natal, além de festividades pagãs, os Arcos da Lapa se tornaram palco das festividades que atraem milhares de pessoas de todas as idades.
Bibliografia:
- Guia de Roteiros do Rio Antigo – Berenice Seara
- Guia Amoroso do Rio – 2001/2002 – José Inácio Parente – Interior Produções
- Guia Quatro Rodas 2005 – Editora Abril
- Relíquias de Casa Velha – Machado de Assis
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