Artigos - Hélio Alonso
 
Revista AABB - Conheça primeiro o Brasil - RIO DE JANEIRO - A CIDADE DO TURISMO HISTÓRICO
Prof. Hélio Alonso

Largo de São Francisco e arredores
 

O Largo de São Francisco no século XVII não passava de um campo alagadiço, assim como a praça Tiradentes e o campo de Santana, que faziam parte do antigo Campo de São Domingos. A cidade, nessa época, ia apenas até a rua da Vala, hoje Uruguaiana, separada, por medida de segurança, por um imenso muro. Somente a partir do século XVIII, mais precisamente em 1742, a irmandade de N. S. do Rosário e São Benedito cedeu o terreno para ser construída a Praça da Sé Nova, o que acabou não acontecendo. E neste terreno nasceu o Largo de São Francisco de Paula.

O Largo tem a forma retangular e se liga à praça Tiradentes através da Rua do Teatro, esquina de uma pequena travessa sem nome, ao lado do Teatro João Caetano. Na face oeste se encontra a Igreja de São Francisco de Paula; ao norte a antiga Escola Politécnica, hoje Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ; ao centro, o monumento a José Bonifácio de Andrada e Silva, o patriarca da Independência. As partes restantes são ocupadas por edifícios e casas comerciais.

Igreja de São Francisco de Paula

Localizada no lado oeste do Largo (s/nº), a igreja se estende até a Rua Sete de Setembro, onde há um pequeno jardim com chafariz veneziano – o Adro Cardeal Jaime Câmara. A Pedra Fundamental de sua construção foi lançada a 7/01/1759 no mesmo lugar onde existia a pequena ermida dedicada a São Francisco, e concluída em 1865.

Muitas comemorações, todavia, foram realizadas antes de sua inauguração, como a de 1816, quando o Brasil foi elevado a reino (16/12/1815), ocasião em que o Senado da Câmara ali realizou solene Te-Deum com a presença do príncipe D. João, seus filhos e o corpo diplomático. Também, a 25/3/1831, ali se comemorou o aniversário do juramento à Constituição de 1824, com a presença de D. Pedro I. E, na inauguração oficial da igreja, estiveram presentes D. Pedro II e D. Teresa Cristina, o Conselho de Ministros e demais autoridades civis e eclesiásticas.

A Igreja de São Francisco é uma das mais belas e ricas do Brasil e o exterior segue a arquitetura religiosa dos períodos Barroco e Imperial, tendo suas torres revestidas de azulejos coloridos. A decoração interior foi realizada em duas fases: a primeira por Mestre Valentim e o pintor Manuel da Cunha, entre 1801 e 1813; a segunda, pelo entalhador Pádua e Castro e os escultores Pinheiro e Almeida Reis, entre 1855 e 1865. As paredes do consistório estão ornamentadas com telas e painéis de artistas consagrados, como Vítor Meirelles, Duarte Fragoso e outros. O grande orador sacro, Monte Alverne, do púlpito da Igreja de São Francisco pronunciou alguns dos seus mais notáveis sermões.

Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (IFCS)

O prédio foi construído sobre os alicerces da projetada Igreja Catedral do Bispado, cuja pedra fundamental foi lançada em 1749, mas interrompida definitivamente em 1752 com a morte do seu protetor, o governador Gomes Freire. Com a chegada ao Brasil de Dom João VI, em 1808, foi construído sobre seus alicerces um prédio para abrigar a Real Academia Militar, fundada em 1810 pelo Conde Linhares, que ali se instalou em 1812. Em 1851 esse espaço foi dividido com a Escola Politécnica, que deu início ao ensino de Engenharia no Brasil, cujo primeiro diretor foi o Visconde do Rio Branco e por onde se formou o engenheiro Paulo de Frontin.

Mais tarde toda a parte militar se concentrou na Escola da Praça Vermelha (1874) e a parte civil como Escola Politécnica ali continuou, até ser criada a Universidade do Brasil em 1937, quando mudou seu nome para Escola Nacional de Engenharia, transferindo-se em 1966 para a Cidade Universitária na Ilha do Fundão. As origens do IFCS, por onde passaram grandes intelectuais, como Victor Nunes Leal, Evaristo de Moraes Filho, Afonso Arinos de Mello Franco e muitos outros, tiveram origem na antiga Faculdade Nacional de Filosofia, criada em 1939.

A reforma universitária de 1968 reuniu em institutos e faculdades cursos da antiga Faculdade Nacional de Filosofia. Hoje, o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais tem três cursos de graduação (Ciências Sociais, Filosofia e História). E também programas de pós-graduação, com mestrado e doutorado.

Monumento em homenagem a José Bonifácio

Ao comemorar-se o cinqüentenário da Independência do Brasil, foi inaugurado em 7 de setembro de 1872, por iniciativa do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o monumento em homenagem a José Bonifácio de Andrada e Silva, patriarca da Independência, que teve como orador o escritor Joaquim Manoel de Macedo e presentes D. Pedro II, dona Teresa Cristina, Princesa Isabel e o Conde D’Eu.

Igreja de N. S. do Rosário e São Benedito

A devoção a N. S. do Rosário, no Rio, vem muito antes de 1639. A partir daí, os devotos da Santa e os de São Benedito fundaram uma confraria, denominando-a de N. S. do Rosário e São Benedito. A irmandade, aprovada em 1669, prosperou funcionando junto à Sé na Igreja de São Sebastião, no Morro do Castelo. Começando a haver desentendimento entre as irmandades, os seguidores de N. S. do Rosário e São Benedito resolveram construir um templo para que a imagem da Santa pudesse ser venerada.

A igreja, construída na atual Rua Uruguaiana, ficou pronta em 1725 e ficou ligada a vários fatos históricos importantes, pois ali funcionou o Senado da Câmara. Dali, o presidente do Senado José Clemente Pereira, às vésperas do dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822, levou ao príncipe regente um abaixo-assinado com oito mil nomes, conseguindo que ele não retornasse a Portugal. Foi lá que a campanha abolicionista teve apoio importante para ser vitoriosa e, também, foi enterrado o Mestre Valentim. Um violento incêndio destruiu totalmente, em 1967, o interior do templo, sobrevivendo a fachada, com duas torres e parte das paredes.

Rua da Carioca

A Rua da Carioca começou a aparecer a partir do século XVII, quando somente de um dos lados surgiam as casas, já que do outro, junto ao Morro Santo Antônio, estavam as cercas dos frades. Inicialmente, chamou-se Rua do Egito, provavelmente por causa de um oratório existente que descrevia a fuga da Sagrada Família para o Egito.

No século seguinte, o seu nome já era Rua do Piolho, apelido de um personagem que vivia pelos cartórios a xeretar causas. Na planta editada na época de D. João VI era esse o nome que ali aparecia. Em 1848, a Câmara Municipal deu-lhe o nome de Carioca, que permanece até hoje. Era estreita, feia e suja, mas Pereira Passos fê-la assim como é hoje.

Nos tempos da colônia, judeus e ciganos não podiam morar nos limites da cidade, que iam até à Rua da Vala, hoje Uruguaiana. Aos poucos, porém, os judeus se estabeleceram na Rua dos Ourives, hoje Gonçalves Dias, e os ciganos preferiram a do Piolho, hoje Rua da Carioca.

Em muito boa hora, criou-se o corredor cultural, resultado da luta dos comerciantes da rua da Carioca, evitando assim que prédios antigos fossem demolidos, todos construídos em 1887. Graças a essa medida, os prédios centenários de números 5 e 37 foram poupados da sanha imobiliária. Consta, inclusive, que em um desses sobrados morou Dorival Caymmi, recém-chegado da Bahia.

Três construções centenárias não podem deixar de ser citadas: O Cine Íris, situado no nº 49, foi projetado pelo engenheiro Paulo de Frontin e é o mais antigo cinema do Rio. Inaugurado em 1909, com o nome de Soberano, conserva preservadas a escadaria e bilheteria de madeira do início do século XX. Foi pioneiro na utilização de uma orquestra, tocando música ao vivo para animar os filmes mudos. Foi reinaugurado em 1919 com nova sala de projeção para 2 mil lugares, abrangendo frisas, camarotes e cadeiras artisticamente confeccionadas. Hoje, o Cine Íris - à Rua da Carioca 51, Tel.: 2262-1729 – promove festas com shows e projeções de vídeos.

O Cine Ideal - Rua da Carioca 62, Tel.: 2252-3460 - também foi construído em 1909 e desfrutou, juntamente com o Cine Íris, da preferência do público carioca. Rui Barbosa foi assíduo freqüentador de suas concorridas sessões, chegando até a ter uma cadeira cativa demarcada por uma placa. Lembro-me bem de uma grande clarabóia na década de cinqüenta que deixava o céu à vista enquanto se assistia às sessões cinematográficas. Hoje foi transformado em um clube de música eletrônica. Funciona aos sábados com festas temáticas, em ambiente moderno, grande, bem decorado, com um terraço com vista para o centro do Rio. Seu público é gay em sua maioria.

O Bar Luís data de 1887 e é a mais antiga cervejaria do Rio. Chamava-se Bar Adolf, cujo nome foi mudado depois da Segunda Guerra Mundial, por motivos óbvios. Sua cozinha alemã e o chope gelado, claro ou escuro, são os mais apreciados da cidade. Seu interior guarda sua roupagem dos anos 20. Mármores, cabideiros e muitos quadros na parede retratam o Rio Antigo. Ainda hoje é freqüentado por escritores e artistas.

Bibliografia:

O Rio de Janeiro do meu tempo – Luiz Edmundo – Conquista

História das ruas do Rio – Brasil Gerson – Lacerda Editores

Rio Antigo – Roteiro Turístico-Cultural do Centro da Cidade - Embratur

Guia Amoroso do Rio – 2001/02 – José Inácio Parente

Guia de Roteiros do Rio Antigo – Berenice Seara – O Globo