Até quando os produtores da informação (repórteres e locutores) continuarão travestidos de promotores de informações, RPs, divulgadores? Qual é a verdadeira função deles? E o que “vendem” os jornais e telejornais? Informação, anúncios, publicidades, fantasia, nada? Há um curto-circuito entre os papéis, o que traz insegurança porque rompe as representações aceitas e se misturam as máscaras conhecidas.
O velho sonho dos publicitários e dos marqueteiros em produzir a informação parece ter sido realizado. Primeiro eles criaram uma dependência do jornalismo para a sobrevivência (sustentabilidade). O setor comercial ganhou espaços. Depois, pelo poder adquirido, arbitraram a superfície impressa e, conseqüentemente, o conteúdo. Passaram a interferir na linha editorial com sugestões de matérias “rec” (recomendada) às editorias. Pronto. Conteúdo e forma e a mediação, na "mixagem" de funções quase simultâneas, perdem seus caracteres de identificação com a audiência, e a credibilidade tão fragmentada se torna institucionalizada. Este é um dos motivos porque o jornalismo começou a acabar para alguns ou já acabou para muitos.
Enquanto a força da propaganda invade o espaço profissional do jornalismo e do radialismo (TV e rádio), poderes inibidores da personalidade desses profissionais crescem assustadoramente através de "padrões éticos e estéticos", principalmente, através da banalização da informação. Várias orientações e posturas éticas são impostas aos repórteres, no sentido de ficarem isentos das opiniões próprias, de inibirem suas personalidades políticas e editoriais sobre as interpretações dos fatos. Além disso, eles são transmudados para adquirir uma nova identidade imposta através de contratos. E, nesse baile de fantasias, são poucos aqueles que mantêm a "impressão" verdadeira de suas máscaras.
A produção "formatada", mosaica, para uma personalidade do "padrão de qualidade" no telejornalismo, principalmente, é adequada na transformação do jornalista e do radialista em "releaseres" ou em porta-vozes institucionais. A fantasia dissimula a personalidade tornando a linguagem monocórdia, sem credibilidade ou ecos. Ao emissor-mediador da informação já travestido só restou banalizar a notícia ou pior, dramatizá-la. Desta forma se desmobiliza: o que deveria provocar uma reflexão na audiência, no exercício de cidadania para a transformação social, se torna uma grande e divertida piada que só alimenta as descrenças. Enquanto isso, a deontologia vai pelo ralo: "Lutar pela liberdade de pensamento e expressão; de fender o livre arbítrio da profissão; valorizar, honrar e dignificar a profissão", alíneas "b", "c", "d", do Art. 9 do Segundo Parágrafo da Conduta Profissional do Jornalista, do Código de Ética da Radiodifusão Brasileira.
O repórter e o locutor alternando suas próprias características físicas e potenciais de identificação com a audiência deixam de ocupar o espaço profissional qualificado para, simplesmente, se tornarem um "head" ou como chamamos, um "papagaio" da linha editorial. E, às vezes, pior que isso, se tornam fantoches, marionetes e atores. É a consagração da irrelevância, ou pior: a compulsão de dramatizar o indramatizável. Certa vez, Artur da Távola afirmou que “estamos vivendo a era do hiper-realismo na imprensa, uma era em que o tratamento da notícia como espetáculo prevalece sobre a notícia como informação”.
Por causa da produção visual imposta ao profissional, somada à imparcialidade tão discutida, é que transmudado, o jornalista passa a ser objeto da instituição. Talvez, por isso, ainda não surgiu o âncora de telejornais e de "talk-shows", a não ser aqueles que conquistaram suas audiências, sem o uso de fantasias ou de máscaras através de outros programas (humor: Jô Soares; revista-mulher: Gabi) ou de outros veículos (jornal impresso: Joelmir Betting, Boris Casoy, Luiz Nassif e Chico Pinheiro).
Os profissionais que rasgaram a fantasia mantiveram suas características próprias e desenvolveram seus potenciais adequando-os à mídia em que trabalhavam. Não aceitaram as normas do "padrão de qualidade", ou seja, as máscaras da produção visual de suas personalidades. Muitos dos que rasgaram suas fantasias, além de conquistar suas audiências, as transformaram através do poder em votos para cargos públicos: Antônio Brito, Hélio Costa, João Saldanha, Cidinha Campos, Garotinho, Sérgio Cabral e muitos outros. Isso, sem contar com os jornalistas que conquistaram outros espaços políticos, como Kléber Leite e Washington Rodrigues, apenas com a força de suas personalidades sem máscaras.
Este resultado da projeção desses profissionais está na relação direta estabelecida com a audiência em que a dita "imparcialidade" (teatralidade) foi deixada para os "heads" de jornais falados e dos telejornais. Eles estão lá, participaram dos fatos, e só o repórter, ou o locutor-narrador, que assistem aos fatos podem e devem dizer o que se passa, como acontece, e porque se faz aquela cobertura. Não é um marqueteiro, que gosta de rinha (briga de galo), que ditará os conteúdos adequados das coberturas, muito menos o departamento comercial ou superintendência que preferem mais espaços na “informação” para o lero-lero do que para a contextualização do fato. Alguns pagam o preço da independência, como foi o caso do radialista Jorge Kajuru, “gordo feio, pobre, mas muito feliz!”, demitido, no ar, por ter feito a cobertura de um fato.
Tanto o repórter quanto o locutor e o apresentador de TV não metamorfoseados devem emitir as versões do fato, suas opiniões, análises, críticas, enaltecendo suas qualidades na capacidade de domínio sobre o fato junto a opinião pública. Só desta forma que a sua existência profissional irá se consolidar. Dependerá exclusivamente, e sempre, dessa relação direta com a audiência, e não com as normas de "imparcialidade", ou de produção visual ditada pelos detentores de concessões públicas de emissoras de rádio e de TV, orientados por maqueteiros farjutos.
(*) Jackson Saboya é jornalista, autor, roteirista para rádio, TV e vídeo, e professor da FACHA-RJ