|
Para entender a ética (ações de responsabilidade ética) do documentarista na produção documental é importante a leitura do artigo “Documentário não é reportagem”. (clique aqui)
A proposta deste artigo é fazer entender as responsabilidades das formas de agir do documentarista na realização de seu documentário.
Entendemos que a proposta fundamental da produção documental é a representação social através de uma narrativa oral ou audiovisual, tal como é a história oral, para emergir uma memória que pode ser representativa de um segmento social ou, por extensão, de um povo.
De certa forma, esta exploração e pesquisa de uma representação social (pontos de vista de indivíduos, grupos ou instituições) possibilitam aflorar, não a memória oficial, nem a memória dominada sobre dominantes, mas uma identidade (memória) que emerge e proporciona novas visões e valores de um mundo comum para sua melhor compreensão.
Os registros de imagens, de depoimentos, de locais, através da edição e montagem (narrativa audiovisual autoral) que representam partes do mundo histórico, levam a audiência a aceitar a realização, como verdade. Vê-se o que está diante da câmera, portanto, é verdade, embora representada de uma maneira autoral e, por isso mesmo, carregada de responsabilidades.
A realidade deste mundo representado está impregnada de valores e de formas de agir (da captura à montagem) do documentarista. Esta é a constante evolução do agir para a representação de uma realidade, portanto, uma ética da realização documental.
Bill Nichols, afirma que há várias maneiras de representar a realidade, e é nesse sentido que cabe ao documentarista a responsabilidade sobre a sua representação. “Nesse sentido, os documentários não defendem simplesmente os outros, representando-os de maneira que eles próprios não poderiam; os documentários intervêm mais ativamente, afirmam qual é a natureza de um assunto, para conquistar consentimento ou influenciar opiniões”¹.
Toda e qualquer forma de representação histórica está envolvida com a ética na realização documental. A ética não só se limita ao modo de como o cineasta monta a representação. Temos a responsabilidade sobre como nós expomos os depoentes, os testemunhos da história – os “atores”, agentes sociais.
Devemos atingir o bom senso em perceber a natureza de cada um destes “atores”, protagonistas dos fatos sociais, e buscar sua atuação natural. Iremos transitar entre a inibição do “ator” e a sua indignação, expressa por sentimentos. A falta de observação da natureza de um agente social pode fazer com que o documentarista o represente de forma caricata, estereotipada, o que pode comprometê-lo e deixá-lo vulnerável a qualquer reação (física, ética, moral e jurídica).
Nossa forma de agir (ética) na representação da realidade do “outro” (agente social) pode ser de maneira deturpada ou distorcida, e alterar a realidade que pretendemos documentar. Podemos promover reações que trarão relativas conseqüências. As representações exigem do documentarista uma constante reflexão sobre a ética para a tomada de decisões responsáveis.
Neste caso, não nos referimos a códigos, nem a deontologia do jornalismo, mas ações de responsabilidades que não estão reguladas, para determinar condutas éticas.
Com muita propriedade, Bill Nichols afirma que “a ética torna-se uma medida de como as negociações sobre a natureza da relação entre o cineasta e seu tema têm conseqüências tanto para aqueles que estão representados no filme como para os espectadores”².
Para Felipe Pena, “o que chamamos de conduta ética refere-se à interpretação de uma determinada atitude. E essa própria atitude pode ser construída e reconstruída de acordo com o parâmetro da interpretação, já que está inserida em uma teia de conexões e complexas estruturas. Como o jornalismo”³.
E são por estas definições e conceitos de Nichols e de Felipe Pena que devemos aplicar o “consentimento informado”. Uma prática sustentada pela antropologia, sociologia, e na experimentação médica, que afirma que se deve falar aos participantes de um estudo das possíveis conseqüências de sua participação.
A representação autoral de uma realidade tem de ser responsável embora os limites para sua conseqüência nem sempre poderão ser percebidos.
_____
¹ “Introdução ao documentário”. Campinas, SP: Papirus Editora, 2005, p. 30.
² Idem, p. 36.
³ “Teoria do jornalismo”. São Paulo: Contexto, 2005, p. 114
|