No seu "Consumidores e cidadãos", que já tem 10 anos mas permanece obrigatório, Nestor Canclini vê a internet, os telefones celulares, fax e computadores como partes de "sistemas restritos de comunicação" destinados "a quem toma decisões". Esse é um dos raros trechos do livro a reclamar urgente atualização, já que a democratização das novas tecnologias, até num país emergente como o Brasil, tornou populares demais essas possibilidades pós-modernas de transmissão de mensagens.
Por desconsiderar ou subestimar esse novo quadro midiático, especialistas e analistas políticos no Brasil têm insistido em destacar a ausência de movimentos populares na avaliação que fazem daquilo que a opinião pública efetivamente pensa da crise deflagrada pelo mensalão. Em suma: uma das coisas que, teoricamente, sustentaria o governo é que os escândalos não suscitaram reações públicas nem comícios na Candelária e na Sé.
Talvez estes analistas estejam subestimando a passeata digital, que já está em marcha. Um dado a considerar: a opinião pública está agora tão instrumentalizada que talvez possa prescindir da decupagem intelectual feita tradicionalmente pelos antigos "formadores de opinião", aqueles que tinham acesso aos "bastidores das notícias". Em outras palavras: quem precisa hoje de "tradução simultânea" para entender aquilo que chega via satélite às casas do País inteiro?
A situação instalada exibe um descompasso explícito - por um lado, nada se percebe da "voz rouca das ruas"; por outro, é na internet e nos celulares, na audiência do jornalismo online das tevês a cabo, que a opinião pública mais tem manifestado o seu desagrado com aquilo que passa a conhecer através das novas tecnologias.
Ao investir em medidas populistas, o governo parece acreditar que essa nova consciência digital não chega a constituir uma ameaça. Será? A cada dia, só faz aumentar a aldeia global dos que se comunicam pela rede - inclusive por que não é indispensável ter um computador para se ter um e-mail e acessar a internet.
Na tela do computador, o que se percebe é que os e-mails vão subindo o tom. Antes, aliviavam Lula, respeitavam sua história e sua possível ingenuidade. Com o tempo, as críticas vêm se tornando mais pesadas, insultuosas - mas sempre refletindo desilusão, desencanto, a mais absoluta decepção com quem chegou ao poder a bordo de um slogan diariamente desmentido: "Não rouba nem deixa roubar". Enquanto isso, para o Planalto, "o pior já passou".
Que peso terá nas próximas eleições essa passeata digital? Até aqui, especialistas em pesquisas e eleições não se mostram preocupados com isso - mas me atrevo a acreditar que o virtual faz mais parte do real do que supõe a nossa vã filosofia.
Poetas mineiros
Zona da Mata e Triângulo Mineiro, Cataguases e Uberaba, as trapaças da sorte juntam em datas próximas lançamentos afins. Um, é Ronaldo Werneck, que refaz três décadas depois sua "Selvaggia", já devidamente decantada pelas melhores penas disponíveis dessa nossa imprensa cada vez mais iletrada. Pois é, falaram tanto que só transcrevo. Elias Fajardo, por exemplo: "`Selva Selvaggia' foi publicado em 1976.
Quase 30 anos depois, Ronaldo Werneck revisita sua obra, acrescenta novos poemas, observações, cartas, opiniões a este livro emblemático. `Selva Selvaggia' tornou-se importante pelo seu conteúdo de renovação e audácia (foi estruturado como se fosse um filme) e, nele, o autor experimenta de um tudo: concretismo, poema processo, invenções em que a palavra é tomada e supervalorizada em seu aspecto gráfico, fotos, ilustrações, desenhos, figuras geométricas de onde jorra poesia."
E Luiz Ruffato: "É a arte literária que se esparrama em cada recôndito dessas 424 páginas. E, se são vários os interlocutores de Ronaldo Werneck, não o é sua filiação. Ele se forma claramente entre as hostes dos barulhentos bárbaros que questionam o estabelecido, que se rebelam contra o antigo, que se batem pelo novo.
Nesse sentido, é no `pensamento concretista' que ele se radica - não no concretismo, mas na `tradição concretista': Gregório de Matos, Sousândrade, Oswald de Andrade, Augusto e Haroldo de Campos, no Brasil; Mallarmé, Rimbaud, Pound, Maiakóvski, Cortázar (sim, Cortázar, o ficcionista, o ensaísta), no exterior. Cônscios, agora, deleitemo-nos com o que se oferece aos nossos paladares: Ronaldo Werneck."
Agora, Cacaso, o do Triângulo. O que nos deixou, em 1987, aos 43 anos. Daniela Aragão é de Juiz de Fora, mas quiseram os caminhos do coração e da poesia fosse parar em Cataguases. Ali, debruçou-se em Cacaso, extraindo do mergulho uma dissertação de mestrado e um CD, em que relê as parcerias do poeta com Suely Costa. Tive o prazer de escrever a apresentação do disco, "Face A - Suely Costa/Face A - Cacaso", encontrável apenas nas melhores lojas do ramo. De modo que transcrevo também: "Pessoas invejáveis são as que vão da intenção ao gesto, da teoria à prática, do que é apenas utopia ao que é matéria viva.
Este CD focaliza, não uma, mas duas pessoas desse naipe - uma, Daniela Aragão, cantora e mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ, onde defendeu dissertação sobre a obra poética da outra, o Cacaso, esse apressado que nos deixou tão cedo e podia nos ter deixado tanto além do muito que deixou.
Mestrados e doutorados stricto sensu costumam deplorar essa falta de estranhamento, de distanciamento crítico, para usar a terminologia brechtiana, entre o cientista e o seu objeto de estudo - às favas com eles. Não há nada mais fértil, mais prazeroso, que discorrer sobre aquilo que se conhece e de que se gosta. E Daniela, como se percebe faixa a faixa deste CD, ou já era apaixonada pela obra de Cacaso e Suely Costa antes de mergulhar no seu projeto acadêmico ou apaixonou-se no trajeto.
O fato é que não se satisfez em dissertar sobre ela. Necessitou, como coisa orgânica, visceral, vivenciá-la em estúdio, como se fosse ela as baianas Simone e Maria Bethânia, as cariocas Nana Caymmi e Olívia Hime, as paulistas Miúcha e Cristina Buarque. O resultado, mais que agradável, é surpreendente - basta que o ouvinte se deixe conduzir por tão sutis comandos. (...)
Assinar esse texto me traz uma alegria particular: Cacaso foi, além de poeta, um intelectual da Comunicação. Conheci-o assim, como professor da ECO/UFRJ, naquelas salas envelhecidas do prédio da Praia Vermelha, em que tive o prazer de ser seu aluno e me tornar seu amigo. Naquela época, era comum que, naqueles jardins internos, antes e depois das aulas, alguns professores e alunos continuassem uma relação e um aprendizado que não se circunscrevia ao determinado nas ementas. E Cacaso era dos mais generosos.
Sempre podia abrir mão de seu tempo para ouvir e orientar os que dele se aproximavam - e eu, já crítico do "Pasquim", experimentei ali a doce sensação de aprender duplamente com professores como Cacaso (Abel Silva também), capazes de acumular o fazer poético com o saber teórico.
Não pode ser só coincidência que, trinta anos depois, Daniela, que é de Juiz de Fora, me chegue justo de Cataguases, cidade de tantas afinidades minhas, para fazer renascer, no ambiente soturno daquelas salas empoeiradas da ECO, a silhueta inefável de Cacaso, que pressinto agora ainda passeia por aqueles corredores."
Canapés
* "Choros e alegria", o novo CD de Moacyr Santos para a Biscoito Fino, será lançado hoje, na FNAC, em São Paulo. Amanhã, o convescote é aqui, na Livraria Argumento, no Leblon, a partir das 20h. A gravação contou com a participação efetiva de Zé Nogueira e Mário Adnet - juntando-se as três sensibilidades, é impossível dar errado. O detalhe é que os choros, belíssimos, quase todos dos anos 40, ganham um tratamento camerístico. E a alegria vai desde um "Samba di amante" a temas contemporâneos que contam até com um solo especial de Wynton Marsalis, e mais não é preciso dizer.
* "Memórias de Cachoeiro", de Marco Antonio de Carvalho, é o livro que vai movimentar logo mais, a partir das 18h, a Casa França-Brasil. São 29 entrevistas com personagens de destaque da simpática Cachoeiro do Itapemirim, cidade capixaba dos irmãos Newton e Rubem Braga e do cantor Roberto Carlos. |