Artigos - Roberto M. Moura
 

20/05 - ABI - On-Line

Canta, canta, minha gente

 

Um beijo nos corações de Chico Buarque, Ivan Lins e Leila Pinheiro: há muito tempo nenhuma música me toma com tanta intensidade quanto “Renata Maria”, parceria dos dois compositores a partir de uma provocação da cantora, que a gravou admiravelmente neste seu novo “Nos horizontes do mundo”, da Biscoito Fino. Já conhecia a letra, mas ouvir a obra pronta, acabada e bem-resolvida em estúdio trouxe-me lágrimas aos olhos em pleno Túnel Rebouças, numa manhã de sábado. Não se pode pedir mais de uma obra de arte que uma emoção assim, tão funda quanto inesperada.

Se estivéssemos, por exemplo, em 1975, uma gravação dessa densidade já estaria tocando em meia dúzia de emissoras de rádio. Mas quantos estão realmente preocupados com o estado de indigência cultural a que chegamos nesses 30 anos, justamente por força do que a mídia eletrônica nos vem impondo, deformando gerações, sem nenhum compromisso ético, social, cultural, educativo?
Aliás, se estivéssemos em 1975, José-Itamar de Freitas já tinha ordenado que se fizesse um clipe para exibição, domingo, no “Fantástico”.

PS: O ano de 1975 não está aí acima por acaso. Foi o ano em que Martinho da Vila, com seu “Canta, canta, minha gente”, interrompeu a liderança de mais de uma década de Roberto Carlos como o artista mais consumido no Brasil. E era o melhor Roberto tendo que enfrentar um Martinho igualmente em plena forma. A gente era feliz e não sabia.

Jazz e blues em Rio das Ostras

Confirmada a programação do Rio das Ostras Jazz & Blues, que vai encher de música a Região dos Lagos neste Corpus Christi.

Dia 25:
Costazul, 20h — Wagner Tiso, Ithamara Koorax e Vitor Biglione; Chicago Blues Ladies & Blues Jeans; Big Joe Manfra e Sérgio Duarte

Dia 26:
Lagoa de Iriry, 14h — Celso Blues Boy e Jefferson Gonçalves Blues Band; Tartarugas, 17h — Magic Slim; Costazul, 20h — Eddie C. Campbell, John Scolfield “Real Jazz” Trio, Celso Blues Boy e Jefferson Gonçalves Blues Band

Dia 27:
Lagoa de Iriry, 14h — Big Joe Manfra e Sérgio Duarte; Tartarugas, 17h — Dwayne Dopsie; Costazul, 20h — Kenny Garrett Quartet, Mike Stern e Magic Slim

Dia 28:
Lagoa de Iriry, 14h — Chicago Blues Ladies & Blues Jeans; Tartarugas, 17h — Mike Stern; Costazul, 20h — Egberto Gismonti, Nnenna Freelon e Dwayne Dopsie.

Dia 29:
Lagoa de Iriry, 14h — Dwayne Dopsie; Tartarugas, 17h — Kenny Garrett Quartet.

Egberto em evento público e de graça é raridade absoluta. Eu diria, até, é prioridade absoluta.

Presta atenção, japa

Em vez de “limites do PT”, tinha que ser obrigatoriamente, “limites do Governo”. Ainda com relação ao artigo passado, não tem o menor sentido que o chefe da Comunicação Social do Governo, Luís Gushiken, se refira à relação do País com seus governantes como coisa partidária.

A farsa e a história

Fotos e declarações publicadas pela imprensa em todo o país durante a semana passada evocam lições históricas que não devem ser esquecidas. O Governo Lula não pode fazer de Stédile o seu Julião, nem do MST a sua Liga Camponesa. Esse filme a gente já viu e morremos todos no fim. A coisa mais importante de um Governo é terminar o seu mandato, entregando a faixa ao sucessor ou merecendo do eleitor o direito de ficar mais quatro anos com ela. Tenência, companheiro: a contradição entre a confraternização com dirigentes do MST, dentro do Palácio, e o pau comendo lá fora foi demais (e isso pouco tempo depois da invasão do Ministério da Fazenda).

Eu teria um desgosto profundo

Talvez os jornalistas esportivos estejam marcando touca. No Flamengo, Gerson Biscotto e Anderson Barros têm sido incumbidos de fechar as possíveis novas contratações do clube. Com quase tudo certo, os caras viajam por conta do clube para sacramentar o contrato e os craques dão um jeito de escapulir. A lista é grande, passa pelo Carlos Alberto, do Figueirense, e chega ao Cláudio Pitbull, do Porto. Não dá para desconfiar que Márcio Braga confiou os negócios do futebol do Flamengo a dois trapalhões? Que jogador, bastando um pouco de confiança nos interlocutores, não tem vontade de vestir o manto sagrado? Em compensação, que profissional quer trabalhar num lugar em que as pessoas que vão fechar o negócio não lhe passam nenhuma credibilidade?

Desmandos e tiros no pé

Aquele compositor não-identificado no “por e-mail” da semana passada, por justificado instinto de preservação, envia nova mensagem. Devia ser “rigorosamente interpessoal”, não contivesse ela uma visão tão sensata sobre o que vem acontecendo com a mídia eletrônica no Brasil:
“Muito embora tenha entendido perfeitamente a sua discrição — eu mesmo havia pedido —, me senti um pouco estranho com a minha declaração sobre o monopólio ‘global’ sendo atribuída a ‘um compositor’ — coisa que o sou, mas... Será que não teria sido mais coerente assumir nominalmente o que eu disse? Depois de ler o restante dos e-mails e, em particular, atentar para um texto dizendo que depois da morte do Maurício (Tapajós) — meu amigo — ninguém teve coragem de confrontar o império global, me senti ainda menos confortável. Não me sinto, em absoluto, acovardado com nada, mas, sinceramente, para que algo seja realmente conseqüente, tem de ser um esforço coletivo, uma declaração de classe, um movimento de muitas vozes se levantando contra esta hidra midiática que se formou com a ditadura militar, cresceu em conchavos com grandes grupos financeiros internacionais e se mantém absoluta na sua visão míope da realidade, alienando pessoas, impondo sotaques/modas/modelos alienígenas a populações interioranas, deformando adolescentes, enfim, impondo seu monopólio em nome de uma ideologia reacionária, velha e alienante. Se for para cerrar fileiras contra os desmandos destes dominadores, conte comigo. Agora, para ser bucha de canhão, tô fora — não leva a nada, é só um tiro no pé, concorda?”

Claro que sim. De qualquer forma, desde o lançamento de “Sobre cultura e mídia” (Vitale, 2001), não é outra coisa o que o signatário tem sido: bucha de canhão. Tiros no pé — de repercussão ainda pequena, mas que deixam a alma mais leve.

No Café Literário, na Bienal do Livro, tentei fugir do assunto, para me concentrar no meu “No princípio, era a roda”, mas Regina Zappa, mediadora do encontro que reunia também Hermínio Belo de Carvalho e Paulo César Pinheiro, me provocou. Pela reação da platéia, percebi que fica todo mundo entalado. Quando se toca no assunto, a catarse é geral. Ninguém agüenta essa tevê que a gente vê por aqui.

Por e-mail

“O seu último livro, ‘No princípio, era a roda’, me conquistou de saída, ao focar a grande figura que é o Camunguelo. Texto culto e de grande prazer.”
(Paulo Senise, Diretor-executivo do Rio Convention Bureau, Rio de Janeiro, RJ)

“Como você não foi valente o suficiente para encarar os pretos-velhos de Valença, crie coragem que ainda há tempo para participar do desafio do esporte bretão de amanhã de manhã. Que tal? Vai nessa. Craque tem sempre lugar no time.”
(Roberto Lora, ortopedista, Vila Velha, Espírito Santo)

* Oi, xará: há sete anos que eu não chuto uma bola — ainda mais agora, com esse tornozelo que você já conhece...

Fonte: http://www.abi.org.br/colunistas.asp?id=302