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Foram quatro anos de trabalho e ver o resultado em edição da Rocco deixa comovido este velho coração. O lançamento será amanhã no SESC-Flamengo (quem ainda quiser convite pode pedir pelo e-mail que está aí embaixo), a partir das 19 horas. A editora convidou o companheiro João Pimentel, de “O Globo”, para fazer o release. E o que ele escreveu é de um exagero só:
“Crítico musical, produtor e diretor de espetáculos musicais e jornalista de grande estirpe, Roberto M. Moura é um especialista em cultura popular, especialmente a carioca, e, mais precisamente, um profundo conhecedor do samba. Não um conhecedor apenas de cátedra - que isso, diga-se de passagem, ele também o é - mas um observador atento, apaixonado, do samba, o gênero musical, e, principalmente, de todas as relações presentes em sua origem e em seu entorno. Muitos bons trabalhos têm sido realizados sobre o ritmo, ou o conjunto de ritmos, brasileiro mais representativo. Muito tem se falado de sua trajetória, de sua origem, de seus baluartes. Mas nenhum deles aprofunda determinado aspecto, destrincha a sua essência, compreende a sua alma. É aí que está o grande diferencial de No princípio, era a roda.: um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes. Neste livro definitivo, fruto de uma tese de doutorado em Música para a UNIRIO, ele parte do princípio de que a roda é anterior ao samba desde que este nasceu na casa de Tia Ciata, na Praça Onze, ganhou forma no Estácio e espalhou-se pelo subúrbio carioca ganhando feições diferentes.
“Roberto M. Moura demonstra, seja através de suas pesquisas, de suas experiências pessoais, de que forma o sambista saiu de sua casa para criar nas escolas as continuações de seus quintais. Mostra, através de letras de Cartola, Paulinho da Viola, Carlos Cachaça, Nei Lopes, Monarco e outros baluartes, a relação afetiva, visceral que estes compositores mantiveram com suas respectivas escolas até serem deixados de lado em prol de interesses de bicheiros, emissoras de televisão e tudo o que cerca hoje o desfile das escolas de samba. Sempre recorrendo à oposição complementar entre casa e rua sugerida pelo antropólogo Roberto DaMatta, ele conta como as rodas de samba de terreiro, mais tarde chamado de samba de quadra, reproduziam as relações mais íntimas, profundas, e como os sambistas representavam a nata da escola, a intelectualidade "mesmo muitas vezes iletrados", como lembram Nei Lopes e seu livro Sambeabá - o samba não se aprende na escola.
“Através de um depoimento interessante de Monarco, ele exemplifica como, a partir do momento que as escolas passaram a representar a rua, com sua política de apadrinhamento, de troca de favores, virando uma instituição voltada para o dinheiro, o sambista passou a ficar cada vez mais distante, e foi procurar o seu ambiente, sempre em forma de roda de samba, em lugares como o Zicartola ou em espetáculos como o Rosa de Ouro e as noitadas de samba do Teatro Opinião. Não à toa o grande João Nogueira se afastou da Portela ao ser impedido de cantar um samba de meio de ano. Na ditadura das escolas, a partir de meados dos anos 60, só samba-enredo.
“Menos pior que na lei própria e informal das rodas não há distinção. A hierarquia é respeitada não pelo sucesso ou pelo dinheiro que a pessoa tem, mas pela sua história dentro do samba. Curiosa também a forma como Roberto mostra o funcionamento de uma roda. A explanação sobre a maneira de se chegar numa reunião de bambas, de ser aceito como um par, de fazer parte deste universo como mais um morador da "casa" é perfeita. Coisa de quem fala de dentro. De quem, há muito, já foi aceito na roda. Enfim, a leitura de No princípio, era a roda.: um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes, apesar de este ser fruto de uma tese de doutorado e de envolver aspectos etnológicos, sociológicos e antropológicos, é, antes de tudo, um passeio maravilhoso por toda a história do samba. Um papo informal, direto e rico, como o próprio ritmo. Poucos poderiam fazer uma obra tão completa, pois Roberto adora este trabalho de campo. Sua descrição da Festa da Penha, do quintal de Tia Ciata e do Cacique de Ramos é deliciosa, o que e faz pensar que, se antes do samba sempre existiu a roda, antes da primeira roda o mestre Roberto M. Moura já estava lá.”
Em livro, os 15 anos do CAMP Mangueira
Digamos que o CAMP Mangueira seja o embrião da Vila Olímpica da Mangueira e da vitoriosa parceria da escola de samba com a Xerox, empresa multinacional que se dispôs a assumir um papel de responsabilidade social diante da comunidade em que atua economicamente. A trajetória dessa parceria ganhou, há pouco, um documento inestimável, pelo que contém de desprendimento, altruísmo e resultados. É o livro “CAMP Mangueira – uma escola de cidadania”, organizado por Lurdinha Castro elançado pela Editora Mauad.
Antes de mais nada, o livro é uma homenagem a Alice de Jesus Gomes Coelho, a Tia Alice, hoje adoentada, com 87 anos, grande desbravadora do projeto que tinha o slogan “vamos tirar as crianças da rua correndo” – e que resulta, hoje, em atletas mangueirenses campeões e olímpicos.
Ex-atleta do Botafogo, com diversas vitórias entre 1956 e 1986, quando fundou o CAMP (Círculo Amigos do Menino Patrulheiro), a afinidade de Tia Alice com a Mangueira vem dos temporais de 1966/1967, em que se apresentou como voluntária para ajudar as vítimas da enchente. Nunca mais saiu de lá – e ainda integra o Conselho dos baluartes da escola. De Tia Alice a Chiquinho da Mangueira, passando por Lurdinha, muita gente responde por esse sucesso. Mas se a Vila Olímpica tiver que ser personificada num único personagem, será a Tia Alice.
Mas o livro da Lurdinha não é só isso. Contém ensaios e artigos que ampliam a compreensão dessa magnífica parceria empresa-comunidade. De Guilherme Bittencourt (chairman da Xerox), José Pinto Monteiro (diretor do Instituto Xerox), Mariana de Castro Moreira (sobre responsabilidade social), Maria Cecília Rodrigues (sobre projetos sociais das empresas), Marcelo de Abreu Maciel (a subjetividade na adolescência), Siro Darlan (15 anos de cidadania), Cristina Sales, João Carlos Quintanilha, Arnaldo Niskier, Arnaldo Niskier, Maria Aparecida Cunha e até o discurso feito por Bill Clinton quando por lá esteve, além de um texto do presidente da escola, Álvaro Luiz Caetano, o alvinho, sobre o significado da cidadania em verde e rosa.
As outras escolas, muitas vezes, reclamam que a Mangueira é o xodó da mídia. Mas, é por essas e outras...
Fonte: http://www.abi.org.br/colunistas.asp?id=238
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