Artigos - Roberto M. Moura
 

Tribuna da Imprensa

Nilze Carvalho, a que estava faltando

 

De repente, a Lapa ficou pequena para Nilze Carvalho. O regional precisou ser reforçado para se altear aos novos vôos da ex-menina-prodígio do cavaquinho e do bandolim, transformada agora, aos 36 anos, numa bela e sensual mulher brasileira, dona de uma arte madura e plena, como se vê em seu CD "Estava faltando você" (Fina Flor) e como pôde testemunhar, na terça passada, um Rival-BR lotado e comovido.

A estética do CD produzido por Ruy Quaresma é mais ambiciosa. Soma momentos em que há uma orquestra que evoca as velhas gafieiras com outros em que as cordas dão uma dimensão, digamos, mais Gaya, ao resultado final (sentado à mesa de Nelson Sargento, falávamos do maestro e o compositor me lembrava de viagem a Cataguases, em que foi no carro de Gaya, com Stellinha, e do encontro com Sergio Sampaio, na Praça Ruy Barbosa).

E que ficha técnica tem o CD da Nilze! Pode parecer detalhe, mas é importante que o ouvinte perceba estar diante de um trabalho que lista, na última página de seu encarte, 42 músicos, aí incluídos Márvio Ciribelli (tecladista), Andréa Ernst-Dias (flauta), David Chew (cello), Léo Ortiz (violino), Alceu Maia (cavaquinho), Carlinhos 7 Cordas, Zé Luiz Maia (contrabaixo, filho do grande Luizão), Itamar Assière (piano), Marcelinho Moreira e Ovídio Brito (percussão). Sem contar o coro, que incluiu Analimar, Mart'nália, Camila Costa e Rixxa (aquele ótimo puxador que enlouqueceu o numerólogo, de tanto que já mudou a grafia do nome). Parece coisa dos bons tempos das multinacionais.

Desde Clara Nunes, a quem o release do CD se refere e homenageia, a música brasileira não registra o surgimento de um timbre feminino tão agradável, com extensão que lhe permite flutuar sem dificuldades das notas mais graves aos agudos de uma composição de intervalos tão largos como "Ilusão à toa" - a velha criação de Johnny Alf é a ponte que liga Nilze não apenas ao choro e ao samba, seus gêneros de referência, mas podem levá-la a um andamento jazzy (como se viu no arranjo de Humberto Araújo, com inspirado solo de sax-tenor).

E podem transportá-la ao choro "Evocação de Jacob" (de Avena de Castro, letrada pelo pai e parceiro Cristino Ricardo) e à "Valsa do sonho", de Paulinho Lemos e Agenor de Oliveira (que, num certo momento, me pareceu coisa de Edu e Chico e elogio maior não sei fazer).

No repertório, achados que logo se incorporarão aos clássicos do samba. Inevitável mencionar "Ele pensa", de Nivaldo Duarte e Márcio Lima, de melodia fluida como água e letra com o caráter das mulheres de fibra, e a faixa-título, de Wilson das Neves e Délcio Carvalho. E acrescente-se a esses os sambas metalinguísticos: "C'est fini", parceria de Padeirinho com Nei Lopes ("Vou da Lapa ao Amapá/ Sou sucesso no Japão/ Sou rei na terra do sushi e sashimi/Visto qualquer figurino/ E nos uribulinos/ Já dei c'est fini"); "Samba ao samba", de Toninho Galente e Marceu Vieira ("O samba é mistura de Mané Garrincha com Pelé/' É curtido no talo da cana e no café/ É filho de santo de olho na cambona/ Torresmo, rabada e azeitona/ É pau da braúna, é minha fé") e "Somos nós", de Wanderlei Monteiro, Mariozinho Lago e Paulinho do Cavaco ("Somos mensageiros de vocês/ Mistura de loucura e lucidez/ Somos todo mundo e cada um/ Todos os lugares, lugar nenhum/ Por isso quando um samba/ Enfeitar a voz/ Aplaudam, pois o samba, somos nós"). Discaço.
A América por DaMatta
Meu querido Roberto DaMatta lança, amanhã, a partir das 19h30, no Armazém Digital, o seu "Tocquevilleanas - notícias da América". Espécie de forra dos brazilianistas que chegam ao Brasil com a pretensão de nos definir, DaMatta reúne aqui as crônicas e observações do "american way of life", num balanço dos 17 anos em que dividiu a sua experiência de arraigado morador do Jardim Ubá, em Itaipu, com a cátedra na prestigiada Notre Dame University, nos Estados Unidos.
O Armazém Digital é um dos mais interessantes espaços multimídia do Rio e fica no Rio Plaza Shopping, em Botafogo. Como o anúncio fala num "pocket-show do autor" e DaMatta gosta mesmo de cantar e contar histórias, a noite tem tudo para ser ótima. Não tanto quanto o livro, porém, cheios de conceitos que, não demora, serão citados por mestrandos e doutorando País afora:

"Países (ou o que chamamos de `Estados-nacionais') não se esgotam nos seus territórios, na sua soberania nacional, nas suas constituições, economia, ou no seu aparelho administrativo, sendo também e simultaneamente, como tenho reiterado na minha obra, sociedades e culturas e, com isso, sujeitos de ideologia e valores".

"Se a pomposidade domina o lado acadêmico, sendo proporcional à sua penetração na sociedade: vender mil exemplares de um bom livro de antropologia social é uma façanha; na mídia ocorre o exato oposto: as colunas e os programas têm uma audiência cativa de milhares pra, salvando-se as nobres exceções, perpetrarem suas infindáveis ofensas éticas e cacofonias sociológicas."

"O repórter e o antropólogo distinguem-se do turista - esse palerma da modernidade - que viaja para simplesmente assistir e comprar, e não para enxergar e compreender os lugares por onde anda." Falou e disse.
Crônica do mensalão anunciado
Os leitores desta "Cultura & Mídia" não têm motivos para se surpreenderem com o aconteceu com o ex-chefe da Casa Civil. Em nota publicada aqui, em 23 de junho de 2003, sob o título "Nova dupla caipira: Ratinho e Zé Dirceu", deplorava que o ex-todo-poderoso do governo "podia ter poupado seus antigos companheiros, os milhões de eleitores do presidente Lula e, mais que tudo, sua própria biografia do espetáculo deprimente que foi a visita a Cruzeiro D'Oeste, interior do Paraná, na semana passada.

Ali, no cenário em que reconstruiu a vida após os anos de perseguição da ditadura, Dirceu permitiu-se ser fotografado num palanque ao lado do radialista Carlos Massa, o Ratinho, no lançamento da campanha do filho, José Carlos Becker, o Zeca, de 25 anos, à prefeitura da cidade". Ratinho "ajudou" a campanha com R$ 800 mil. Zeca foi eleito. Bem, se era capaz de brigar pelo poder na minúscula cidade paranaense, que não está nem no mapa, o que não seria capaz de fazer no Planalto?

Despedida das "Encantadeiras"
Depois de um mês de sucesso, o projeto Encantadeiras se despede, amanhã, do Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil, com as participações especiais de Virgínia Rodrigues e do Cortejo Brincante Abayaômi. Sessões ao meio-dia e às 18h30. Reunindo mulheres que cantam e encantam, mas que vêm de regiões diferentes do Brasil, Encantadeiras tem seu repertório baseado especialmente em cantos de trabalho e pregões, cujo maior mérito é nos lembrar um pouco da história da nossa identidade cultural, fortalecendo com a sua pureza a auto-estima tão maltratada pelo que a nossa gente tem lido nos jornais.

Por e-mail:
"Sobre o livro e o poema do Drummond, `As sem-razões do amor', vale lembrar que nosso amigo em comum José Antônio Freitas Mucci, o Tunai, musicou-o e, em dobradinha com Milton Nascimento, cantou-o em seu disco ao vivo. Ficou lindo. A história do poema musicado é longa, pergunte a ele. Mas, acima de tudo, a parceria entre os três ficou divinal."
(Célio Albuquerque, jornalista, Rio de Janeiro, RJ)

* Célio tem razão. Tunai deu uma banho e a gravação é mesmo linda.
"Não é que Lula venha do ancien régime, mas que pisou na lama do Delúbio, pisou."
(Gutenberg Guarabira, compositor, São Paulo, SP)

"Declaro a priori não ser contra os atos de ninguém, desde que não prejudiquem ou influenciem outras pessoas. Como foi publicado, fica parecendo que estou patrulhando os hábitos dos outros, o que não é o caso. Você sabe como nosso meio é sensível a essas coisas. A gente é logo tachado de careta, direita, démodé e outros epítetos mais."
(Reginaldo Bessa, compositor, Rio de Janeiro, RJ)