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Indiferentes às fronteiras estilísticas, demarcadas muito mais pela ideologia e pelos ressentimentos que pela realidade, as novas cantoras do samba têm incorporado aos seus repertórios, altaneiras, sem culpa e sem revanche, pérolas da chamada MPB e que não são menos samba por causa disso.
Enfim, o que parecia um acidente com “Ilusão à toa”, no recente e ótimo CD de Nilze Carvalho, parece configurar-se agora como uma tendência, observados os igualmente preciosos “O mundo é meu lugar”, de Teresa Cristina (DeckDisk, também em DVD), e “Tem mais samba”, de Dorina (Rob Digital).
Reunidos, estes CDs instilam maturidade neste momento em que a Lapa só peca pelo excesso. Há samba por toda parte, com a inevitável diluição que isso possa trazer — mesmo antes do Katrina, porém, ninguém poderia ir a qualquer biboca de New Orleans e ter certeza de que encontraria lá o verdadeiro jazz. Mas deixemos o Mississipi e retornemos ao Mangue.
O CD de Dorina, na verdade, é uma coletânea comemorativa de seus dez anos de carreira, reunindo uma seleção que começa em Mário Gago (“Bonifácio”, que o pessoal da roda conhece através de Cláudio Camunguelo) e vai a Chico Buarque, num de seus sambas inaugurais (“Tem mais samba”, de 1964).
O repertório também conjuga títulos conhecidos apenas por quem é íntimo da roda (“Vivência no morro”, de Monarco; “Dona Maria do Babado”, de Darcy Maravilha, Hilcemara e Rodrigo Rosado; “Oluan”, de Wilson Moreira; e “Sempre acesa”, de Luiz Carlos da Vila e Sombra) com sucessos como “Eu canto samba” (Paulinho da Viola), “A estrela de Madureira” (Acir Pimentel e Carvalho), “Sentimentos” (Mijinha) e “Anjo da velha guarda” (Moacyr Luz e Aldir Blanc).
O CD de Teresa Cristina, entre exemplos perfeitos do que seja o samba em sua pureza — como a faixa inicial “Gorjear da passarada” (Argemiro e Casquinha) e “Já era” (Mauro Duarte) —, tem a ousadia de reler “Pra que discutir com madame”, samba de Janet de Almeida, de 1956, gravação de Walter Damasceno, e que já tem uma releitura clássica, de João Gilberto, de 1986. Além disso, ela põe sua voz de pastora a serviço de “Meu guri” (Chico Buarque) e “Com a perna no mundo” (Gonzaguinha), sambas de muito trânsito no rádio, naquele tempo em que o rádio gostava da MPB.
Aliás, certa má vontade dos radicais do samba diante da MPB tem a ver com isso: para o rádio, samba era Clara Nunes e Martinho, às vezes Paulinho da Viola, Beth Carvalho e Alcione e a produção do pessoal não exclusivamente do gênero (Chico, Gonzaguinha, João Bosco, Gil e outros). Nunca houve, no dial, espaço para Cartola ou Candeia, para Nelson Cavaquinho ou Monarco.
Ora, a questão se atém às relações da música popular com a mídia, dentro das regras cínicas da indústria cultural — e exatamente por isso é bom cultivar grandeza e generosidade, prevenindo cisões que só enfraquecem o povo da MPB. É o que fazem, e de caso pensado, essas incríveis meninas da Lapa.
Voz e violão
Só quando chegam a um determinado patamar da carreira é que certos artistas atingem aquele estágio que lhes permite ousar a gravação de uma obra que se soma aos cânones, isto é, que seja a um só tempo didática e exemplar. Todos os violonistas brasileiros lembram-se, não por acaso, de “Caymmi — voz e violão”, do mesmo modo que os pianistas acorrem agora a este “Tom Jobim — piano e voz”, que andava perdido nos gerais de Minas. Bem, João Gilberto é um caso à parte.
Para engrossar a lista, um exemplo internacional e jazzístico, curtido aqui durante décadas por muita gente boa: a célebre gravação de Ella Fitzgerald com a guitarra de Joe Pass. Não, não é um disco: é uma master class de jazz.
Enfim, é o artista e um instrumento. Uma visão minimalista, mas densa, de suas concepções mais fundas do que seja a música. Portanto, não é para qualquer um. Há que se chegar lá, e nem todos podem.
Esse intróito me ocorre ao ouvir o novo CD de Moacyr Luz, “Violão & voz” (DeckDisk). E para confirmar a convicção com que o intérprete e compositor mostra ao público o novo trabalho basta consultar o encarte: as 13 letras vêem cifradas.
Moacyr sabe que, tanto quanto música, está dividindo com o ouvinte um saber (nos agradecimentos, ele reverencia seus mestres, Helio Delmiro e o parceiro Aldir Blanc). A lapidação dos ensinamentos adquiridos se transforma, então, na maestria que se divide agora entre novas versões para antigos sucessos seus (entre eles, a lírica “Coração do agreste”, a bucólica “Só dói quando eu Rio”, as envolventes “Cachaça, árvore e bandeira” e “Medalha de São Jorge”) e a descoberta de novos caminhos harmônicos e andamentos para standards como “Feitio de oração” (Noel e Vadico), “Palhaço” (Nelson Cavaquinho, Oswaldo e Washington), “Acontece” (Cartola) e “Alvorada” (Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho).
O resultado, que orgulha a música brasileira, é item obrigatório para quem se aventura nas armadilhas do violão e para quem pensa que pode cantar sem ser debaixo do chuveiro.
Perdida no espaço
É um pouco como chutar cachorro morto, tantas foram as pedradas à direita e à esquerda que a moça levou. Mas a carta aos alunos (ela é de São Paulo, mas pensa que é o próprio São Paulo), publicada na “Folha”, obriga a que se volte aos recentes despropósitos da filósofa Marilena Chauí acerca dos imbróglios governamentais. Como se sabe, essa confusão começa com a participação dela, aqui no Rio, no ciclo de palestras “O silêncio dos intelectuais”, organizado por Adauto Novaes.
Recapitulemos. Há intelectuais orgânicos e engajados. Assim como houve Gramsci e o CPC da UNE. Em compensação, há os que levitam. Seus pensamentos e divagações jamais descem ao rés-do-chão sujo da realidade. Vivem no Olimpo e tudo o que habita o mundo real lhes é estranho. Nas universidades e congressos, orgulham-se de não ler jornais. Não sujam as mãos com as questões minúsculas e comezinhas do cotidiano. Estão permanentemente em alfa e deploram com sinceridade os que perdem tempo com essas insignificâncias.
De repente, por uma circunstância qualquer, eis que um microfone mais possante surge à frente de um desses habitantes das nuvens. Esquecido de que não está da área restrita da sala de aula, diante do olhar bovino de uma classe universitária desestimulada até para reclamar, ele mostra ao País que “Ando meio desligado” não é apenas uma canção “festivalesca” dos Mutantes nos anos 70. Foi o que aconteceu com a spinozista Marilena Chauí.
Deveria prosseguir posta em sossego a nobre filósofa, cingindo-se às preocupações que marcam a sua obra (concordará ela com as idéias que Deleuze defendia acerca dos conceitos escritos pelo holandês no séc. XVII?) — mas, como disseram Noel e Orestes, a filosofia só a auxilia “a ficar indiferente assim”. Não sabe de nada, de roubos e ladrões, de “valeriodutos” e corrupção, de um projeto de poder montado em cima de dinheiro sujo. Dos atos concretos que transformaram em pesadelo os sonhos de uma geração inteira. Na sua angelical pureza, na sua inarredável utopia, tudo o que Marilena vê é que “lá, brilha uma estrela”.
Desculpe, filósofa. Mas você errou de ágora. E de agora também.
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