Artigos - Roberto M. Moura
 

29/08 - Tribuna da Imprensa

Tom Jobim inédito, 18 anos depois

 

Um dos tormentos dos pesquisadores é a questão dos lançamentos não-comerciais. São gravações produzidas para projetos especiais ou brindes natalinos - e delas têm resultado maravilhas cantadas e decantadas à boca pequena, para desespero de todos. Por exemplo: é justo que alguém que se interesse pela nossa cultura popular saiba que Tom Jobim disse que sua gravação para a Construtora Odebrecht, só para quem faz parte do mailing da empresa, foi das que mais gostou de fazer na vida?

Pois este "Tom Jobim - inédito", recém-lançado pela Biscoito Fino, é justamente aquele velho CD duplo do final de 1987, embutido no mesmo pacote da biografia escrita por Sergio Cabral num projeto pilotado por Vera Alencar e Jairo Severiano, relançado numa edição modestíssima em 1995. Ouço-o e imagino, principalmente, como o recebem agora aqueles músicos que tiveram o privilégio impagável de privar e conviver com o maestro soberano em fase crucial de suas formações.

Penso em Jacques Morelembaum e Danilo Caymmi, este escolhido para fazer o solo vocal do arranjo que Tom criou para a "Modinha (Seresta nº 5)", de Villa-Lobos. São dois músicos que, como Paulo Jobim, filho do artista, vêm de berços privilegiadamente musicais. Mas, mesmo filhos do maestro Henrique Morelembaum e de Dorival Caymmi, mesmo que tenham freqüentado, como freqüentaram, os melhores conservatórios e sido alunos dos melhores professores, foi na banda de Tom Jobim que fizeram a pós-graduação, que amadureceram e consolidaram seus estilos.

Repito de vez em quando que ninguém passou impunemente pela experiência de tocar com Miles Davis ou Hermeto Paschoal. Num paralelo, me arrisco a afirmar que, embora tenham trabalhado com, entre e para diversos outros grandes nomes após a morte de Tom Jobim, foi com ele que Jacques e Danilo atingiram em suas carreiras um patamar quase impossível de ser transposto.

"Tigres da Lapa" mostram Ariel na flauta
Como Jobim, Marcos Ariel também se divide entre o piano e a flauta. No sopro, acompanhou Cartola em 1978 no Teatro Clara Nunes. Ao piano, tem 17 discos lançados nos EUA, Europa e Japão. Marcos já viveu a dúvida de todos os grandes músicos brasileiros, de optar entre o jazz e o choro - era um tempo em que as patrulhas tornavam isso quase indispensável.

Hoje, mais leve, dá-se ao luxo de conjugar os dois gêneros sendo, acima de tudo, brasileiro. Talvez se possa dizer que a ponte dessa liberdade seja a participação especial de Juarez Araújo, saxofonista tão querido e já falecido, gravando com ele os contrapontos que Pixinguinha escreveu para sax-tenor.

O fato é que este novo trabalho, "Marcos Ariel e os Tigres da Lapa" (Rob Digital) guarda essa leveza, ao mesmo tempo em que visita repertório tradicional ("Proezas de Sólon", "Ingênuo", "Vou vivendo" e "Seu Lourenço no vinho", de Pixinguinha e Benedito Lacerda, e "Tico-tico no Fubá", de Zequinha de Abreu, por exemplo) e passeia por melodias mais experimentais ("Bebê, de Hermeto, "Tigres da Lapa", de Luiz Americano, e "Perplexo", de K-Ximbinho).

Junto aos clássicos, com a segurança de quem há muito deixou de ser apenas um virtuose para ser também um criador, Marcos Ariel exibe a sua veia autoral em faixas como "Maxixe do João Pedro", "Perguntas da Alice", "Uma valsa para Pixinguinha" e "Façanhas do Zé Paulo". Disco bom de ouvir, esse. Parece que acaba em menos de 10 minutos.

Pau Brasil, versão "2005"

Na formação deste "2005" (Biscoito Fino), o grupo Pau Brasil reúne Ricardo Mosca (bateria) e Teco Cardoso (saxes alto e soprano e flautas) aos pioneiros Nelson Ayres (piano e teclados), Paulo Bellinati (violão) e Rodolfo Stroeter (baixo acústico e elétrico). Trata-se de CD de qualidade superior, possivelmente o melhor que o grupo já gravou, antes de mais nada por ser impossível perceber a linha que separa nele o popular do erudito.

São oito faixas apenas, por que os músicos exploram à exaustão as possibilidades harmônicas de temas conhecidos como "Bye Bye Brasil" (Menescal e Chico Buarque) e "Na baixa do sapateiro" (Ary Barroso). Ao mesmo tempo, nas "Bachianas º 5" (Ária da Cantilena e Dança Martelo), o tratamento é rigoroso e respeitoso - mas como se Villa-Lobos pudesse subir novamente o velho elevador da ABI para uma partidinha de sinuca com Paulinho da Viola.

Sobram, então, as quatro faixas autorais. A mais conhecida, especialmente dos músicos que perseguem as dificuldades do violão, é "Jongo", de Bellinati, aqui em delicada versão camerística. As outras são "Pulo do gato" (Bellinati), "Ciranda" (Stroeter e Bellinati) e "Fogo no baile" (Nelson Ayres). Arranjador requintado e compositor de estilo, Nelson investe em criação de inspiração nordestina, sugerindo em muitos momentos a formação minimalista de sanfona, triângulo e zabumba, que evolui para intervenções bem mais sofisticadas de Stroeter, Teco Cardoso e Bellinati. Ou seja: o Pau Brasil é um caso bem resolvido de convívio salutar entre talentos musicais.

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"Djalma Dias, antes de Palmeiras, Santos e Atlético Mineiro, deu expediente no América, o do hino mais bonito." (Jorge Roberto Martins, jornalista e pianista, Rio de Janeiro, RJ)

* Vacilo meu. Foi campeão carioca em 1960, numa final inesquecível contra o Fluminense. Já escrevi tanto sobre essa fase dele, inclusive no meu "Praça Onze", que agora derrapei.

"O Globo, do alto de sua soberba, houve por bem defenestrar do caderno `Prosa & Verso' dois ícones de nossas letras, o grande poeta Affonso Romano de Sant'Anna e o erudito crítico literário Wilson Martins. Parece que os motivos foram econômicos, entretanto, não acredito que fossem tão regiamente pagos a ponto de o jornal fazer com isto alguma economia. Mas, respeitando o direito de qualquer jornal modificar seu corpo editorial, o leitor precisa de uma `satisfação'. Fiquei muito aborrecido, pois ambos eram ilhas de sabedoria naquele caderno. Affonso Romano, além de sua brilhante contribuição poética, tem a particularidade de enxergar as artes plásticas assim como eu, consegue separar o joio do trigo e briga quixotescamente contra a tremenda empulhação nelas reinante. Wilson Martins está noutra seara, mas dava a sua sábia contribuição. O que mais me revoltou nesta trapalhada foi que, ao serem feitas as substituições em um caderno de `Prosa & Verso', ambas foram jogadas para o alto, principalmente a Poesia. No número subseqüente à saída dos dois, os assuntos colocados em troca versaram sobre os escândalos da patota Delúbio, Valério e Cia. Ilimitada, recrutando-se um time de sociólogos, cientistas políticos e outros PHDs para tecerem considerações a respeito. Enfim, deixamos de comer caviar e passamos para o picadinho de terceira categoria. Mas porque estou me lamentando contigo? Não sei se teria calma e educação suficiente para reclamar com a editora do referido Caderno pelo absurdo perpetrado. Será possível que tenha que carregar esse fardo cada vez mais pesado, e não me refiro ao peso da idade, mas o de sentir que só andamos ladeira abaixo?" (Amadeu Martins, engenheiro e ex-professor da UERJ, Rio de Janeiro, RJ)

* Poucas coisas me incomodaram mais na imprensa, nos últimos tempos, que essas demissões e suas alegadas razões. A respeito, só um pronunciamento competente e fidalgo de Alberto Dines, no "Observatório da Imprensa". A mídia, tão ciosa para falar de tudo, fecha os olhos na hora de falar de si. A questão é simples: os grandes jornais hoje são editados com base em pesquisas. Essas pesquisas flagram os interesses de leitores cada vez mais rasteiros. Daí que, na "contenção de despesas", saem dois craques e ficam em campo um monte de pernas-de-pau.